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A evolução do MMA aos olhos de ‘Big’ John McCarthy

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A evolução do MMA aos olhos de ‘Big’ John McCarthy

Ele fala sobre criação de regras nos anos 90 e diz quem são os melhores lutadores do esporte



RIO — Conversar com "Big" John McCarthy não é apenas falar com um gigante intimamente ligado com a história do MMA e do Ultimate Fighting Championship. É também ouvir declarações apaixonadas por este esporte de um dos personagens que mais lutou por sua aceitação por políticos e pela opinião pública nos Estados Unidos, peças fundamentais numa época em que as lutas da modalidade estiveram ameaçadas nos anos 90. No Rio de Janeiro, onde será árbitro e juiz nesta quinta-feira, às 20h, do Mestre do Combate, evento chancelado por Rickson Gracie e que tem regras diferentes à do UFC, Big John se entusiasma ao compartilhar a experiência do homem que mais vezes esteve entre dois lutadores num octógono.

Como é ser um personagem tão ligado a esse jovem esporte?

John McCarthy: Eu não sou diferente de qualquer outra pessoa. Me considero incrivelmente sortudo por conseguir fazer parte de algo que amo. Eu lutei pelo MMA, fiz tudo o que podia para convencer as pessoas de que esse é um esporte fenomenal com atletas fenomenais e que deveriam ter a mesma consideração do que qualquer outro esporte profissional. Poder ter feito isso foi uma honra. Sinto que há muito tempo atrás, algumas pessoas me deram a chance de fazer algo que pensava que seria só por um dia (ser árbitro do UFC 2, em 1994) e terminou em uma carreira que me permite visitar lugares, conhecer pessoas e fazer coisas que nunca seria capaz de fazer no esporte.

E você é uma estrela do esporte mesmo sendo um árbitro, o que não é comum em outros esportes.

JM: No boxe ou no MMA, ajuda o fato de que há dois lutadores e um terceiro cara ali. Randy Couture, super conhecido, tem um total de 30 lutas naquela jaula. Eu estive naquela jaula milhares de vezes. Acho que por estar tanto lá, as pessoas me veem várias e várias vezes, começam a me reconhecer.

Como você criou o "Are you ready? Are you ready? Let's get it on!" (bordão antes do início das lutas, quando pergunta aos lutadores: “Você está pronto? Você está pronto? Vamos nessa!”)

JM: Não houve nenhum verdadeiro planejamento. Quando fui arbitrar o UFC 2, o Art Davie, que era sócio do Rorion Gracie, me perguntou o que eu iria falar e avisou: "Eu quero que você comece a luta com um gesto com as mãos e uma declaração, gritando". Eu disse: "Tá bom, mas o que você quer?". Ele falou: "Não sei, você tem que vir com a ideia". Imediatamente eu falei: "Eu tenho dois caras que querem meter a porrada um no outro. Só quero perguntar se esse cara está pronto, se esse outro cara está pronto e vamos nessa." Ele falou: "Isso é bom! É isso que eu quero."

Diferente do UFC, no Mestre do Combate você poderá julgar as lutas. Como árbitro, você costuma imaginar quem ganhou? Acontece do resultado ser diferente da decisão final?

JM: Toda hora! Acabou de acontecer recentemente num torneio em Abu Dhabi. Eu sei que esse lutador (apontando para a esquerda) ganhou a luta, mas eles (os juízes) me fazem levantar esse braço (levanta o braço direito). Eu odeio isso, me deixa louco. Algumas vezes as pessoas não entendem a quais elementos devemos dar crédito numa luta de MMA. Se você derrubar alguém para o chão e não fizer nada, e daí?, isso não afeta a luta. Você deveria julgar a luta baseada em quem está fazendo a outra pessoa ter problemas, onde está o estrago, se ele está diminuindo a habilidade do outro de lutar. É isso que estamos buscando. Troca de posição é só um troca de posição. Se você não fizer nada com isso, não vou te dar nenhum crédito. E foi assim que o sistema de pontuação foi feito. Eu fui a pessoa que o criei, com Jeff Blatnick (ex-atleta olímpico de luta greco-romana e juiz de MMA), anos atrás, em 1999. Era isso o que olhávamos e muita gente entrou no esporte depois e criou suas próprias ideias de como dar esses pontos. Isso é um problema.

Por que esses problemas ainda acontecem?

JM: Quando eu comecei com o UFC, todos nos odiavam. Eu era o filho bastardo. Ninguém queria falar comigo. E agora que o MMA se tornou popular, todos querem ser parte disso. "Eu sei julgar, eu sei o que estou fazendo", dizem as pessoas, quando elas na verdade não podem. Quando duas pessoas estão no chão, você precisa saber quem está controlando a luta. Um juiz precisa entender nosso esporte, precisa entender o que os lutadores estão fazendo, como ler a mudanças de um ângulo, quem está criando aquele movimento e quem está respondendo a ele. Tudo é uma ação e reação. Nós precisamos dar crédito para o atleta que está criando a ação, não a reação.

Você ajudou a criar as regras que são hoje utilizadas no MMA americano. Como é estar em um evento que não segue essas regras? (As lutas do Mestre do Combate serão disputadas em dois rounds, um de 10 minutos e outro de 5, e o gongo não soa se uma posição estiver encaixada. Além disso, a pesagem será feita nesta quinta-feira, o mesmo dia das lutas.)

JM: Essas são as mesmas regras! A diferença real (do Mestre do Combate) é que se um lutador no fim do round tem a capacidade de finalizar seu oponente e o gongo soaria, ele não vai soar. Nós vamos esperar eles terminarem o que têm para fazer. Essa é a diferença.

Como você vê seu trabalho de criação das regras do MMA?

JM: Naquele tempo, algumas coisas aconteciam e eu pensava: "Cara, você não deveria fazer isso". Uma das primeiras coisas que eu fiz foi impedir o “anzol” (quando um lutador coloca o dedo na boca do adversário e puxa a bochecha). Isso porque Tank Abbott estava tentando fazer em Oleg Taktarov (no UFC 6, em 1995). A única maneira de se defender é dando uma mordida, mas você não pode morder. Eu falei: “Você não pode fazer isso. É sujo.” Outra foi quando Marco Ruas lutou contra o Taktarov (UFC 7,5, em 1995). Marco derrubou Oleg para o chão e ele segurou a grade com uma mão e se levantou. Eu olhei naquela época e disse: “Sabe, isso não é certo. Ele está usando uma ferramenta para sair do chão”. Fui ao dono do UFC e falei que precisávamos colocar uma regra impedindo de segurar a grade. E ele disse: "O que você está falando? Eu amei aquilo, foi a melhor parte da luta". Eu disse: "Não, não foi justo". Ele disse: "Não, foi ótimo... vamos deixar." Nós deixamos e tivemos duas lutas que realmente mudaram essa regra: Fábio Gurgel contra Jerry Bohlander (UFC 12, em 1996) (...) e Wallid Ismail contra Kazuo Takahashi (UFC 12, em 1997). Algumas regras levaram mais tempo, outras foram mais rápidas. As Regras Unificadas entraram em vigor em 2000.

Muitas das regras eram das lutas que estávamos realizando no UFC, e agora existem algumas pequenas coisas que são diferentes. Me satisfaz que a gente tenha colocado essas coisas, que foram eficientes e mantêm os lutadores em segurança. O histórico do MMA fala por si próprio. É um esporte de combate. É um esporte violento, já que há muitas coisas que podem ser feitas. Mas não o vejo como um esporte que causa estragos como o boxe, que causa mais danos. Com duas pessoas em contato e toda a habilidade que esses caras tem, temos um histórico bem seguro em todo o mundo, com milhares e milhares de lutas e uns três casos graves. Futebol tem mais mortes, futebol americano, beisebol e até basquete também.

Quem é o maior lutador que você viu no octógono?

JM: É impossível dizer. Quando esse tipo de luta começou, Royce Gracie era como a versão 1.0 do MMA. Ele trouxe um estilo singular e usou esse estilo lindamente para bater seus oponentes. Lutadores como o Randy Couture e Chuck Liddell são a versão 2.0. Randy levou o wrestling dele para um patamar onde o adversário não podia respirar e ele usava isso para ganhar as lutas. E ele aprendeu como usar suas mãos para levá-los a essa posição e ganhava lutas porque as pessoas estavam tão preocupadas (com o wrestling) que não pensavam nos socos. Chuck Lidell fez o inverso. Ele usou um passado de wrestling universitário e foi para o kickboxing, e se tornou muito bom nisso. Georges S-Pierre e Anderson Silva são a versão 3.0. O único cara que eu coloco como 4.0 é Jon Jones, com Anderson perto.

Então, Jon Jones é o melhor de todos os tempos?

JM: Olho para ele de forma diferente por conta da estrutura que recebeu de Deus. Músculos não significam nada, mas você olha para o comprimento das braços, em como são finas as pernas... As pessoas olham para mim e dizem que eu tenho um braço grande. Mas isso não é bom! É difícil fazer um mata leão (gesticula como se tentasse colocar o braço no próprio pescoço). Enquanto isso, um cara magro consegue colocar o braço. E a estrutura do Jon Jones é perfeita para lutar. Ele faz tudo, faz wrestling, fica em pé bem, finaliza. Olha a finalização que ele deu no Vitor Belfort! Isso mostra como o Jon Jones tem tudo! Mas o melhor peso por peso (desconsiderando as categorias) até que seja vencido é o Anderson Silva, com Jon Jones e Georges St-Pierre logo ali.





http://oglobo.globo.com/esportes/a-evolucao-do-mma-aos-olhos-de-big-john-mccarthy-principal-arbitro-na-historia-do-ufc-6793689


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Caramba... Esse é um cara que dá gosto de se ouvir falar sobre o assunto. Inteligente e ligado no passado, presente e futuro do MMA como um todo.

A definição dele sobre os melhores, pra mim, foi perfeita. É exatamente o que eu vejo, principalmente sobre o Jones.

Parabéns John!


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sem ideia

- Vai um cafezinho ai?
- Não, não, obrigado!
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Muito interessante, concordo com ele em um monte de coisa.

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Ótima entrevista.

Essa parte que ele fala do 1.0, 2.0 e etc, é perfeita, coisa de quem entende mesmo.


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Crente e fiel ao Deus Chris Weidman

"He is the champion now" Anderson Silva, 2013.
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mitoso escreveu:Ótima entrevista.

Essa parte que ele fala do 1.0, 2.0 e etc, é perfeita, coisa de quem entende mesmo.

Verdade!

Jones realmente é a versão "4.0" do MMA! O mais completo! Além de ser "gigante"...

Porém, não o acho melhor que Anderson! Talvez se evoluir (bastante) em pé, possa vir a ser...


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OBRIGADO, WAND!
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Jeremias88 escreveu:
mitoso escreveu:Ótima entrevista.

Essa parte que ele fala do 1.0, 2.0 e etc, é perfeita, coisa de quem entende mesmo.

Verdade!

Jones realmente é a versão "4.0" do MMA! O mais completo! Além de ser "gigante"...

Porém, não o acho melhor que Anderson! Talvez se evoluir (bastante) em pé, possa vir a ser...

Mas foi exatamente isso que ele falou. Jones é a evolução do MMA, onde a parte física (envergadura e porte físico) definem o estilo do lutador. Greg viu isso no Jones, viu que com o físico e a envergadura que ele tem, uma forma de luta um tanto quanto diferente poderia ser perfeita pra ele. Uma boa capacidade para finalizar, braços longos que, se esticados, permitem abrir uma distancia segura contra seus oponentes e que lhe permitem atacar diminuindo as chances de ser golpeado durante o seu ataque. Por ter esses braços longos, ele consegue atacar com os cotovelos, de pé, de forma única. E também por ser grande e forte, ele consegue exercer uma pressão muito grande na posição de 100kg, o que lhe dá uma grande vantagem pra exercer o G&P e até mesmo para finalizar.

Mas vou ser sincero: eu não gosto da forma como ele usa as cotoveladas no G&P. A cotovelada nessa situação não tem outra finalidade se não cortar, fazer o oponente sangrar. Só se ganha o efeito visual com isso. O oponente levanta no fim do round com a cara ensanguentada e fica aquela impressão "nossa, como ele esta sangrando! Foi massacrado" e as vezes depois que limpa o sangue, é um cortezinho de nada, mas sangra pra burro. Mas as vezes é um corte imenso que parece uma lagarta e a luta tem que ser encerrada. Ganha-se também o fator psicológico em cima do oponente, mas em alguns casos esse ganho é mínimo, em outros, é imenso... Se abolissem essa cotovelada no G&P (o que eu acho muito correto), iria prejudicar muito no jogo do Jones. Greg também tinha que trabalhar mais as mãos do Jones, seu socos, seu poder de nocaute, principalmente se os planos de subir pra Pesados forem mesmo verdade...


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sem ideia

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